domingo, 13 de junho de 2010

Inicio (III)

Hoje, retomo aquilo que deixei para trás. Deixei-me, perdi-me, traí-me. Finalmente aceito o que sou. Passei este tempo de ausência a fazer de mim uma rapariga exemplar, uma dona de casa perfeita. O problema surge quando o meu eu não me permite ser nada disto. Sou um pilar da ponte de tédio, alguém que se balança constantemente na corda bamba. A vida a meu ver, a meu ser é isto e não o decepcionante Apolinismo, sempre o mesmo, sempre rotineiro. Sou Dionisíaca, e gosto! Jamais volto pregar rasteiras a mim mesma, fazer de mim fantoche deste teatro ridículo que é a vida, vida aos olhos da sociedade.

"7"
Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

Mário de Sá-Carneiro, in 'Indícios de Oiro'

Se ainda estivesse aqui, no hoje, não hesitava em persegui-lo, casar com ele. Ok, talvez soe mórbido, mas a verdade é que o que me seduz no meu oposto, na minha metade que por vezes me completa é a sua intelectualidade, o facto de termos conversas horas a fio sobre interesses, pontos de vista opostos. Homens bonitos há muitos, mas para quê? Na esmagadora maioria das vezes nem são bons no dito "vale dos lençóis" para que quero eu um homem bonito? Para olhar para ele? Para isso tenho esculturas, pinturas, fotografias. Bonecos, fantasias para observar. O que falta às mulheres é a intelectualidade.É claro mais delicioso deliciarem-se com a sua "própria" imagem (que nem é própria porque estão carregadas de maquilhagem e falsidade) do que lerem bons livros para os poderem discutir.

Enfim,
de que me serve a mim pensar?
Ser eu? Ninguém me entende... Talvez seja melhor assim!

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